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terça-feira, 3 de agosto de 2010

Brasil no contexto do comércio mundial

Transcrevo abaixo uma entrevista que expõe uma opinião, da qual compartilho integralmente, fala de comércio exterior, mais precisamente de nossa incapacidade em fazer isto bem. Junto com um plano de médio e longo prazo para a educação, é um tema vital para o futuro do Brasil. Somos incipientes e amadores neste assunto, e o primeiro passo é saber disto com clareza.

Abaixo reproduzo a entrevista do Prof. Carlos Arruda, da Fundação Dom Cabral

"Brasil é player pequeno no comércio mundial"

Professor responsável por estudo do Fórum Econômico Mundial diz que falta incentivo para empresas ganharem com o mercado externo

Apesar de ocupar a posição de maior exportador de commodities do mundo – e de ter voz de liderança no Mercosul -, o Brasil está longe de ser um gigante do comércio mundial. Ao menos é o que afirma Carlos Arruda, professor da Fundação Dom Cabral e responsável pelos estudos de competitividade elaborados no Brasil para o Fórum Econômico Mundial. Números da Organização Mundial do Comércio (OMC) mostram que o Brasil responde atualmente por menos de 1% do fluxo comercial global.

Segundo dados do último Relatório de Facilidades de Comércio, o Brasil se manteve na 87ª posição entre os anos de 2009 e 2010, em uma lista de 125 países (veja a matéria completa no box ao lado).
Em entrevista ao iG, Arruda diz que o Brasil não é um grande player do comércio internacional e critica o foco das empresas brasileiras, que voltam suas forças ao mercado interno. Para o economista, o Brasil está em um processo de desindustrialização, com o aumento das exportações de commodities básicas na pauta, em detrimento de produtos com maior valor agregado.
Na avaliação de Arruda, o cenário é negativo para o Brasil e as medidas anunciadas pelo governo são “tímidas” para mudar a realidade do País no cenário global.
Confira a íntegra da entrevista concedida por Carlos Arruda ao iG:

iG: O fato de o Brasil não ter avançado no ranking de Facilidade de Comércio de 2010 indica que o País estagnou no comércio mundial?
Carlos Arruda: O Brasil, do ponto de vista do comércio internacional, não é um grande player. Ele participa de cadeias muito especificas e tem uma tradição de que vale mais a pena vender dentro do Brasil que exportar. As empresas que não são exportadoras não têm uma grande orientação para fazer um esforço extra para vender para o mercado internacional.

iG: E quais são as consequências disso?
Arruda: Recentemente, podemos citar que há uma desindustrialização em andamento. Tem um início desse processo com o aumento da participação das commodities básicas, como soja, suco de laranja. Há uma tendência a diminuir a exportação de produtos de maior valor agregado. O Brasil tem se mantido como um país não muito orientado para o comércio internacional. Temos poucos players com estratégias bem definidas para exportações.

iG: É desvantagem para o Brasil ser um grande exportador de produtos básicos, em detrimento de produtos com maior valor agregado?
Arruda: As empresas, mesmo as que têm como prioridade o mercado domestico, se beneficiam muito tendo um percentual de sua produção voltado para exportação. Isso aumenta as exigências em cima dessas empresas e, consequentemente, amplia a competitividade da empresa no mercado interno. Eu vejo que não é só uma questão de volume de exportação, e sim de exposição internacional. O Brasil está cada vez mais exposto na economia mundial e as empresas precisam estar prontas para participar desse esforço.

iG: Quais são os principais entraves para que o Brasil melhore sua posição no comércio global?
Arruda: Marco regulatório. Tudo o que se refere a marco regulatório no Brasil não está nada bem. O país não vem fazendo as reformas no sistema que regulamenta as atividades empresariais. Tudo o que se refere a marco regulatório que é citado no relatório Doing Business, do Banco Mundial, o Brasil vem ficando para trás. O Chile nos anos 80 fez muitas reformas, que tornaram a economia mais dinâmica e ágil. O Brasil não fez e não vem fazendo essas reformas na velocidade necessária e isso gera uma defasagem muito grande de fazer negócio no Brasil e gera ineficiências. O Brasil está ficando muito para trás. Isso requer uma atitude do governo e do Legislativo. Por ser um pais em que o Executivo opera em cima de acordos com diferentes partidos, o avanço nas reformas se torna muito mais difícil. É mais difícil fazer esse tipo de coisa em uma democracia que em um regime fechado.

iG: No curto prazo, o senhor acredita em avanços com relação às reformas? As eleições tendem a barrar ainda mais esse processo...
Arruda: Nós tínhamos muita expectativa que o governo Lula fizesse essas reformas. O PT tem sido o partido de oposição mais forte. Quando chegou ao poder, seria a oportunidade de fazer os acordos necessários para essas reformas. Como isso não aconteceu, vai ficando cada vez mais difícil. Qualquer representante do Legislativo tem consciência da necessidade das reformas. A consciência existe e as soluções também. Países vizinhos mostraram que há soluções mais simples para serem implantadas. É uma questão de acordo partidário. Quem assumir o próximo governo deveria ter isso como prioridade. A oportunidade passou, mas podemos aproveitar outras futuras.

iG: A melhor avaliação do Brasil no ranking diz respeito à Infraestrutura de Transportes e Telecomunicação, que é um segmento bastante criticado internamente. Isso mostra que o cenário nos outros pilares é muito negativo?
Arruda: O cenário é negativo. A infraestrutura é consequência das outras situações. O Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) deu uma perspectiva positiva para superar as deficiências do passado, mas não para projetar o Brasil do futuro. É uma agenda positiva, mas não é forte o suficiente para essa antecipação. O Brasil terá de fazer esforços grandes em todos os sentidos, aeroportos, portos e rodovias. Além de tratar algumas agendas que precisam ser aceleradas, o custo do acesso à internet, a banda larga, que o Brasil precisa acelerar rapidamente para a Copa do Mundo de 2014, a Olimpíada de 2016 e para o pré-sal.  O Brasil tem um momento muito bom, porque existem referencias para o futuro, mas a nossa realidade não é tão favorável assim. O grau de implantação desses investimentos estão defasados em cerca de 45%. As reformas não foram feitas e não serão feitas em 2010. Estamos deixando muita agenda para os próximos anos, o que é preocupante.

iG: A crise internacional trouxe à tona novamente a discussão sobre o papel do Estado como agente propulsor da economia. Na sua avaliação, quem deve ocupar o papel principal para que o Brasil tenha um papel mais relevante no comércio mundial?
Arruda: Do ponto de vista regulatório, o governo é fundamental. Temos uma situação critica no Brasil, que é essa confusão entre Estado e governo. O Estado é fundamental para promover as reformas necessárias, as políticas públicas de desenvolvimento, com a participação da iniciativa privada. Quem é competitivo são as empresas. O papel do Estado é criar o ambiente favorável para as empresas competirem. As medidas anti-crise mostram que o Estado tem capacidade para isso.

iG: Em maio, o governo anunciou um pacote de medidas para setor exportador. O senhor acredita que essas iniciativas ajudarão o Brasil a mudar sua posição no comércio global?
Arruda: São medidas muito tímidas. O governo tem ferramentas mais significativas, como a questão tributária. No ano passado, tivemos incentivos para o consumo doméstico, que poderiam ser usados de forma mais significativa. De certa forma [o pacote] decepcionou. Precisava ser mais planejado e discutido, com medidas mais assertivas. Entende-se que não é momento para grandes mudanças, porque é ano eleitoral, a economia interna está aquecida e há sempre a preocupação do superaquecimento. Isso tem de ser feito com muito cuidado. O Brasil é um pequeno player global e isso faz falta. O Brasil tem que aumentar ações para o comércio internacional e incentivar as empresas a irem ao mercado internacional de maneira estratégica e não só oportunista.

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