O peso da responsabilidade

Responsabilidade existe, tem um peso, mais precisamente, pesa 1,7 kg.

Loucura 04

Os mecanismos cognitivos, perceptivos e outros mais “ivos” que tentam descrever nossa mente, trazem revelações muito interessastes para análise. Um destas é descrita na matéria que reproduzo abaixo, esta matéria demonstra como as “percepções” se entrelaçam para formar nosso entendimento do que está a nossa volta.

Espero que goste, eu gostei.

"Um político de peso, capaz de opiniões abrasivas, quando questionado sobre seus atos, esquiva-se com argumentos escorregadios. Incapaz de sentir a pressão da culpa sobre a alma, dorme um sono leve."

Você deve estar imaginando a que político estou me referindo, mas talvez não tenha percebido que o parágrafo acima contém cinco exemplos do uso de termos relacionados ao sentido do tato (peso, abrasivo, escorregadio, pressão e leve) para qualificar objetos que jamais percebemos por meio desse sentido (político, opiniões, Paulo, culpa e sono).

A associação de termos relacionados aos sentidos para qualificar objetos não relacionados ao sentido em questão ocorre em todas as línguas. Estudos quantitativos demonstraram que o tato é o sentido em que esse fenômeno de transferência é mais frequente, apesar de muitas vezes o sentido da visão ("uma mente brilhante") e o do olfato ("aquele acordo fede") também fornecerem qualificadores para objetos não relacionados.

Muitos linguistas e psicólogos acreditam que esse fenômeno se deve ao fato de o tato ser o primeiro sentido utilizado pela criança para perceber o mundo exterior. Mesmo antes de abrir os olhos, o recém-nascido sente o bico do peito na boca, prova o gosto do leite e se conforta com o cheiro e o abraço da mãe. Esses cientistas acreditam que mais tarde, durante o desenvolvimento da linguagem, a mente humana transfere para objetos abstratos muitas das qualificações derivadas dos sentidos. E ao longo da história da humanidade, em todas as culturas, essas associações se perpetuam em expressões verbais.

Agora, um grupo de cientistas deu um passo além e investigou se essa associação entre percepções táteis e objetos não relacionados influencia o comportamento e a capacidade de julgamento de pessoas adultas. O que eles testaram é se a presença de um estímulo tátil afeta nossa capacidade de decisão.

No primeiro estudo, pediram para 50 voluntários avaliarem o currículo de um candidato a um emprego hipotético. Todos os voluntários receberam o mesmo currículo, com o mesmo texto, impresso em folhas de papel idênticas, e tiveram o mesmo tempo para fazer sua avaliação. A diferença é que metade recebeu o currículo em uma prancheta leve, que pesava aproximadamente 300 gramas, e a outra metade, em uma prancheta pesada, de mais de 2 quilos. Uma diferença de 1 quilo e 700 gramas. Os voluntários deveriam avaliar, em uma escala de 0 a 10, se o candidato era adequado à vaga, se possuía os requisitos necessários e assim por diante.

Peso da linguagem. O resultado é impressionante. Os avaliadores que receberam a prancheta pesada deram notas maiores para as qualidades do candidato que, na língua inglesa, possuem expressões verbais associadas ao peso (capacidade intelectual e responsabilidade). Por outro lado, na parte da avaliação que perguntava sobre a capacidade de socialização do candidato, que na língua inglesa não possui expressões relacionadas ao peso, a avaliação pelo grupo de pessoas com as pranchetas pesadas ou leves foi idêntica.

Além disso, os cientistas pediram para que os voluntários avaliassem como se sentiam em relação à responsabilidade de avaliar um candidato a partir de apenas um currículo. Os que haviam recebido o currículo em pranchetas pesadas avaliaram sua própria responsabilidade como muito maior quando comparada à percepção dos que receberam as pranchetas leves. Ou seja, "sentiram o peso da responsabilidade".

Outros cinco experimentos, que testaram se a manipulação de objetos rugosos ou lisos e duros ou moles afeta o julgamento de pessoas adultas, confirmou que nossa capacidade de julgamento e decisão é realmente afetada pelo estímulo tátil ao qual estamos submetidos. Esse experimento demonstra claramente que nossa capacidade de tomar decisões racionais é aparente e limitada.

Nosso cérebro, o aparato que processa informações e decide, está longe de ser isento de influências que datam de nossa infância. Tudo indica que nossa história tem um peso muito real sobre nossa capacidade de julgamento. Freud deve estar sorrindo no túmulo.

Fonte : Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo

Comentários

Tomas disse…
Grande Dalbi,
Vamos lá à minha estréia comentando sobre o texto de um assunto que também me fascina. O cérebro.
No decorrer da evolução, o sistema nervoso tornou-se uma rede complexa e especializada de circuitos integrados responsáveis pela percepção e redirecionamento de estímulos.
De acordo com o que a ciência comprovou até agora, o sistema límbico (constituído por amígdala, tálamo, hipotálamo, hipófise, hipocampo e área septal) é em grande parte o responsável pelo controle do nosso comportamento emocional e impulsos motivacionais.
Apesar de ocupar menos de 1% do volume do cérebro, o hipotálamo é um centro de extrema importância por ser o responsável pelo controle das funções vegetativas como sede, fome, saciedade e regulação da temperatura corporal. Cabe a ele as estruturas límbicas associadas ao papel de controle comportamental de emoções como fúria, medo, raiva, impulso sexual e principalmente reações de PUNIÇÃO e RECOMPENSA.
Experiências sensoriais que não evoquem sensações de recompensa ou punição são dificilmente lembradas.
Trata-se de um mecanismo de sobrevivência desenvolvido e apurado na longa batalha da evolução.
Parte carregamos como carga genética herdada dos milênios evolutivos e parte “reforçamos” a partir da infância de acordo com os estímulos e experiências a que somos expostos.
O assunto é longo, interessantíssimo e não cabe todo aqui neste comentário.
A pincelada foi só para dar “água na boca” e jogar a “isca” para novas pesquisas suas sobre o tema.
Abraço,
Tomás
Dalbi disse…
Grande Tomás,
Excelentes informações... obrigado.
Dalbi

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