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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Federer, Nadal e a existência de Deus

Este é só para quem gosta de esporte, e talvez até especificamente Tênis, apesar de eu achar que estes dois personagens transcendem um pouco estas duas barreiras.

Hoje começa o 1o Grand Slam do ano na alagada Asutrália, e lá estarão eles novamente, brigando pela hegemonia. Eu tive o privilégio de vê-los duelar duas vezes, ao vivo, é pleonasmo dizer que foram duas finais, pois pelo nível dos dois só se encontram nestas situações, na hora de ver que é o Deus da vez e quem será apenas o excepcional do dia.

Por estas e outras, quando li o texto que o Paulo Cleto colocou em seu blog (veja aqui), decidi trazê-lo para cá e compartilhar com todos um pouco do que vejo e vi.

Como bom “engenheiro de obras prontas”, queria dar meu pitaco, mas Paulo Cleto não deixou nem uma brecha, nem a máxima - “Federer é Bossa Nova, Nadal é Carnaval…”- ficou de fora, divirtam-se com o texto….

Federer, Nadal e a existência de Deus

Eu sou daqueles que, hegelianamente, creem que os opostos podem, mediatizando-se em teses e antíteses, ir se complementando dialeticamente até uma síntese maior, suprema, nominável como Infinito. Esse é o caminho, único e indelével, quando se pretende provar a existência de Deus.

Como os exemplos da Filosofia para esta doutrina de Hegel, quando há, não são fáceis, tomo um exemplo do esporte, com Roger Federer e Rafael Nadal.

Federer é um tenista suíço, destro, estilo clássico (tênis-arte) e backhand com uma mão.

Nadal é um tenista espanhol, canhoto, estilo contemporâneo (tênis-força) e backhand de duas.

Federer é genótipo de um casamento entre Rod Laver e Martina Navratilova. Nadal é fenótipo de um casamento entre Björn Borg e Steffi Graf.

Federer veste camisa polo branca, short-com-cinto e flutua na grama. Nadal usa manga cavada multicolorida, calça capri e surfa no saibro. Federer tem um quê de retrô chic; Nadal, de underground pop.

Federer é saque; Nadal, devolução.

Federer joga sustenido. Nadal joga bemol.

Federer é eastern. Nadal western. Federer é norte; Nadal, sul.

Federer pratica, com excelência e maestria, cada golpe da cartilha do tênis, acrescentando alguns no livrinho. Nadal tem e escreve o seu próprio livrinho.

Federer é voleio na cruzada. Nadal é passada na paralela.

Federer é follow-through. Nadal é topspin.

O jogo do Federer é lastrado no game point. Do Nadal, no break point.

A raquete do Federer vai ao encontro da bola. A do Nadal, de encontro a ela.

O Federer tem toque e “légèreté”, é um maestro com sua batuta. Nadal tem TOC e “Brutalität”. É um virtuose, de bazuca.

Federer movimenta-se em balé clássico. Nadal, em dança flamenca.

Federer faz bolas impossíveis e inacreditáveis, cometendo uns crimes contra as leis da Física. O Nadal busca essas bolas, cometendo delinquências.

Nadal, em quadra, sofre de taquicardia e, se for preciso, sua sangue. Já o Federer é bradicárdico, tem sangue azul e não transpira.

Federer tem um jogo lírico, de espírito fleumático. Nadal tem um jogo épico, apoteótico.

O Federer joga intuitivamente. Nadal, por instinto. Quando o Federer sofistica, Nadal simplifica.

Federer é front: vai para a disputa verticalmente, explorando o território inimigo. Mas, se é para matar, mata o oponente com injeção letal ou câmara de gás. A arma do Federer é o florete holográfico usado pela Maria Esther Bueno na final de Wimbledon de 1964.

Nadal é trincheira: vai para a guerra horizontalmente, esperando o inimigo. Mas mata como os assírios, de todos os modos (desde que com intensidade). A arma do Nadal é o sabre usado naquela final de Wimbledon, e emprestado pela mão de Margaret Smith.1

Federer é civilização grega e Nadal é Império Romano. Mas, se ambos fossem gregos, Federer seria ateniense e Nadal espartano.

Nadal joga usando a tática para superar a técnica. Federer joga usando a técnica para superar a tática. O tênis do Nadal é eficiente. O do Federer é eficaz.

Nadal é Maradona jogando copa. Federer é Pelé, em campeonato de pontos corridos. Se bem que, na posição em campo, é Federer que estaria mais para um meia de criação, que – movimentado-se pouco – recebe e distribui as bolas, enquanto o Nadal estaria mais para um volante de marcação, que – transpirando muito – consegue roubar as bolas desses meias, e de outros também.

Federer comove-se ressoando um “Allez!” e é campeão reclinando-se aos joelhos. Nadal vibra retumbando “Vamos!” e é campeão jogando-se, de corpo inteiro, ao chão.

Federer, creio, bebemora com Dom Pérignon, borgonha ou chopp escuro na temperatura ambiente, e comemora degustando um prato da culinária francesa, com o olhar no além. O prato, petit; o olhar, blasé. Para sobremesa, fondue de chocolate… suíço.

Nadal, imagino, brinda com Freixenet Reserva Real, bordeaux ou cerveja estupidamente gelada. A comemoração é com um prato de comida italiana, com o olhar no prato. O olhar de “mangia che te fa benne”; o prato, primo, secondo, terzo, quarto. Para sobremesa, pudim de leite muito condensado.

Federer é alimento natural. Nadal, transgênico.

Federer integra chapa da situação e, se tiver que fazer revolução, é uma Revolução Inglesa. Nadal faz partido de oposição, e está sempre pronto para uma Revolução Russa. Nadal tem um “ar” de comunista cubano, mas, no fundo, é monarquista; Federer, de liberal americano, mas parece um republicano.

Os amigos de Federer formam um petit comité cosmopolita. Os do Nadal, um ghetto catalão.

Na Suíça, Federer tem um flat art déco na reservada Oberwil, e o Nadal tem um jeito expansivo de Zurique.

Na Espanha, Nadal tem um palacio minimalista na reservada Manacor, e o Federer tem um jeito expansivo de Madrid.

Federer passa as férias na serra, com a família. Nadal na praia, com a Shakira.

Nas horas vagas, Federer joga polo. Nadal, pratica tourada.

Nas cartas, Nadal é valete de espadas. Federer, rei de copas.

Federer tem a sofisticação de carro inglês, mas dirige um Mercedes-Benz. Nadal tem resistência de carro alemão, mas dirige um Aston Martin.

Para ver as horas, o Federer, embora combine mais com um Patek Phillipe de bolso, usa um Rolex de pulso. Já o Nadal, embora rime mais com relógio digital, usa um Richard Mille.

Assiste-se aos jogos do Federer ouvindo uma orquestra de câmara executando “Air aus der Orchestersuite nr. 3″. Aos do Nadal, ouvindo uma filarmônica tocando “La Tempesta di Mare”. Para os jogos de um contra o outro, é de bom alvitre sobreporem-se as peças.

Num solo, Federer requer piano allegretto grazioso; Nadal, violino allegro appassionato.

Na Filosofia, Federer é Aristóteles na Antiguidade Clássica, Tomás de Aquino na Idade Média, Kant na Modernidade e Heidegger na Idade Contemporânea. Nadal é Sócrates, Agostinho, Hume e Debray.

O filme do Federer é livro de Shakespeare, adaptado por Machado de Assis, dirigido por Bergman, tem fotografia de Michelangelo e trilha sonora de Bach. O do Nadal é livro do Cervantes, com adaptação de Lewis Carrol, é dirigido por Tarantino, tem fotografia de Dalí e música de Vivaldi.

O personagem do Federer é o James Bond, interpretado pelo Sean Connery. O Nadal é interpretado por Stalonne, inspirado num misto de Rambo e Rocky Balboa. Mas, se fosse um musical, como ensinou certa vez um mestre do tênis, Federer estaria para Fred Astaire enquanto o Nadal para Gene Kelly.2

Nas belas artes, enquanto artistas, Federer é um pintor e Nadal um escultor; enquanto obra, Federer é o Davi de Michelangelo e Nadal o Davi de Bernini.3

Na música, Federer é jazz, bossa nova, Beatles e Eric Clapton. Nadal é rock’n’roll, samba-enredo, Rolling Stones e Jimi Hendrix. Na clássica parceria de “Perhaps Love”, Federer é John Denver e Nadal é Placido Domingo.4

Ambos, como disse o mais famoso dos dramaturgos, são feitos da mesma matéria que são feitos os sonhos5, como todos nós; mas eles são iluminados, como poucos.

Parafraseando um dos grandes cronistas do esporte6, Federer e Nadal trocando bolas numa quadra de tênis fazem prova irrefutável da existência de Deus.

E a providência divina é tanta que com eles até Hegel é compreendido.

1 A metáfora do florete (rapier) e do sabre (broadsword) é uma referência a um artigo de jornal da época, citado por Henry Wancke, em “Smith v Bueno (1964)”. Fonte:

2 Analogia feita por Paulo Cleto, em “Super-homens”. Fonte:

3 A primeira analogia foi feita por Alessandro Matteoni, no texto “O pintor e o escultor”. A segunda foi feita por Pedro Berutti, em adendo àquele texto. Fonte:

4 Analogia feita por Glads em comentário ao texto “Porta-bandeira”, de Paulo Cleto. Fonte:

5 William Shakespeare, em “The Tempest”, Ato 4, cena 1.

6 Referência à encontradiça frase “A tabelinha de Pelé e Tostão confirma a existência de Deus.”, de Armando Nogueira, originalmente parafraseada, para o tênis, por Olavo Brito em comentário ao texto “O Poeta”, de Paulo Cleto."

3 comentários:

Felipe disse...

Que maravilhoso. Parabéns!

flavio campos disse...

Nunca li nada mais bonito sobre o tenis, apesar do linguajar exageradamente sofisticado do autor.

Dalbi disse...

Blog em júbilo... no mesmo dia comentários do Flávio Campos e do Marcos Cunha. Dois pensadores de grande categoria, e blogueiros de fina estirpe, confiram vocês mesmos ... http://blogdoflaviocampos.blogspot.com/ e www.notaslivres.com.
Vale a pena !!!

abs,