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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Presunções da nossa mente…

Após ler o post “Quem você pensa que é ?”, Tomás Manzano, que além de bom amigo, é um destes caras multidisciplinares, e tem como um dos seus ‘hobbies’ estudar nosso cérebro. Baseado em seus estudos elaborou o interessantíssimo artigo abaixo – “O cérebro presunçoso”.

O texto fala de um mecanismo muito interessante do nosso cérebro, trata-se de um mecanismo que nos protege de uma frustração muito grande, adaptando, segundo pude compreender, a nossa percepção da realidade que está a nossa volta. Muitíssimo interessante e tenho certeza de que todos se identificarão com o texto, como eu, que entendi bem a mensagem no trecho em destaque abaixo :

Quando o fraco desempenho em uma tarefa pode representar uma significativa ferida ao ego, o cérebro é particularmente ativo em autopromoção. Quando dizemos a uma pessoa que a solução de um quebra-cabeças está relacionada à inteligência, ela é muito mais sujeita ao viés em proveito próprio do que aquelas a quem dizemos que resolver quebra-cabeças é apenas algo que quem não gosta de ler faz no Trem.

Tem lá seu fundo ‘Matrix’, ou seja, o que é de fato a realidade senão a percepção de cada fato, ou um momento, mas isto é complicado, mas prometo que pedirei novamente a ajuda do Tomás, a quem aproveito para agradecer demais pela ‘audiência’ e a prontidão em colaborar para enriquecer o Blog.

Abaixo segue na íntegra seu texto.

Por : Tomás Manzano

Ao passear aqui neste Blog esta semana pelo texto “quem você pensa que é” do Max Gehringer e principalmente pelo bem humorado vídeo do Mario Cortella (“sabe com quem você está falando?”) me lembrei de conceitos muito interessantes sobre o funcionamento do Cérebro publicado no livro “Idéias Próprias” de Cordelia Fine (editora Difel, 2008) que julgo bacana compartilhar com os leitores.

O livro é extenso, repleto de resultados científicos , testes e pesquisas e trata sobre dimensões do cérebro relacionadas à distorção das nossas percepções.

A primeira delas diz respeito à presunção, e de forma resumida relata o que vai baixo:

O cérebro Presunçoso

Para uma realidade mais suave e mais gentil

Se alguém perguntar, as pessoas confessarão, modesta e relutantemente, que são, por exemplo, empregados mais éticos e com motivação mais nobre ou melhores motoristas que a média. Este último caso inclui até pessoas que foram entrevistadas em hospitais, logo após serem retiradas dos destroços retorcidos que, um dia, foram seus carros. Não nos consideramos como parte da metade inferior da pilha e, estatisticamente, isto não é possível . Entretanto em uma amostra de cérebros presunçosos, é inevitável.

Para começar, sempre que possível seu cérebro interpretará a pergunta da maneira que for melhor para você. Mesmo que você seja um fracasso total em uma área da vida, seu cérebro dará um jeito de diminuir a importância da habilidade em questão. Eu, por exemplo, não consigo desenhar. Sou o equivalente artístico de ser surdo para tons. Porém, isto não me chateia de forma alguma, pois para meu cérebro, desenhar é algo desnecessário. Entendo que ser um artista pode ser útil da mesma forma que, para um contorcionista, é útil ser capaz de dobrar as pernas atrás da cabeça. Por fim, em uma esperta intensificação deste auto-aprimoramento, acreditamos que nossas fraquezas são tão comuns que, na verdade, fazem parte da falibilidade humana ordinária, enquanto nossas forças são raras e especiais.

Quando o fraco desempenho em uma tarefa pode representar uma significativa ferida ao ego, o cérebro é particularmente ativo em autopromoção. Quando dizemos a uma pessoa que a solução de um quebra-cabeças está relacionada à inteligência, ela é muito mais sujeita ao viés em proveito próprio do que aquelas a quem dizemos que resolver quebra-cabeças é apenas algo que quem não gosta de ler faz no Trem.

Quanto maior a ameaça em potencial, mais autoprotetor se torna o cérebro presunçoso.

Ao utilizar-se de vieses poderosos na memória e raciocínio, o cérebro pode censurar e editar a verdade de maneira seletiva, tanto a respeito de nós mesmos como do mundo, abrindo espaço para uma realidade mais suave, gentil e, no todo, mais palatável.

Talvez o fracasso seja o pior inimigo do ego, e esta é a razão pela qual o cérebro presunçoso se esforça em barricar a porta para impedir a entrada deste visitante indesejável. O viés em proveito próprio, provê alguns serviços adicionais para este fim. Uma abordagem consiste em lhe dizer que, em retrospectiva, as chances estavam contra você e que o fracasso era inevitável. Pesquisadores descobriram que os otimistas, em particular, fazem uso desta estratégia, que foi chamada de pessimismo retroativo e torna o fracasso mais facilmente digerível.

Há no entanto pessoas que exploram o viés em proveito próprio de forma diferente, chamada de auto-desvantagem, onde o cérebro se assegura em ter uma desculpa não ameaçadora para o fracasso, caso este ocorra. Se você puder culpar sua falta de esforço pelo fraco desempenho em um teste de inteligência, por exemplo, a auto-imagem enaltecedora de sua inteligência e competência permanecerá incontestável.

Obviamente, a memória é um dos maiores aliados do ego. Boas coisas sobre nós mesmos tendem a ter um lugar garantido nas células do cérebro, enquanto coisas ruins, como vimos, tem hábito de ceder lugar e escapar.

A memória não apenas é conivente com o cérebro a respeito da informação que ele deixa entrar, mas também controla a informação que deixa sair.

Todos os cérebros contém um enorme banco de dados de memórias pessoais relacionadas àquela perene a fascinante pergunta, Quem sou eu? , ou ao autoconceito. Contudo, os psicólogos descobriram que o autoconceito é auto-ajustável. Se o autoconceito que você usa não se ajustar mais aos motivos, o cérebro apenas veste algo mais confortável. A memória tem a destreza de pegar as recordações pessoais que melhor se encaixam nas novas circunstâncias.

O que acontece é que o cérebro presunçoso consulta a memória para se assegurar de que o autoconceito mais atraente irá servir. Do enorme armário de ricos e complicados eventos autobiográficos de sua vida, a memória seleciona as lembranças que melhor se ajustam ao autoconceito que você tenta alcançar.

Nos comportamos como um advogado esperto que procura sempre evidências para apoiar o caso de seu cliente.

Mesmo sabendo que somos, como diz o Cortella, o “vice-treco do Sub-troço”, a presunção pelo jeito é enorme e involuntária!

Cabe a nós o esforço diário de tentar quebrar (pelo menos parte) desta inércia.

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