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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Teimosias da mente…

Tomás leu “Os dois lobos” e como de costume, trouxe seus comentários para ajudar-nos a entender o tema. Antes que alguém o chame de ‘atrasado’ eu faço o ‘mea culpa’, pois ele me enviou este comentário na mesma semana, eu é que me atrasei…

Espero que gostem…

 

Por : Tomás Manzano

Ao ler o post “Temperança – os dois lobos” da semana passada, não posso deixar de relembrar algumas reflexões interessantes sobre o funcionamento do nosso cérebro.

Teimosia

O cérebro evita, distorce, despreza, tira conclusões errôneas e, até mesmo cria evidências – tudo para que possamos manter aquele reconfortante sentido de estarmos certos.

Nossa teimosia começa no nível mais básico – a informação a que expomos nós mesmos.  Não buscamos no mundo objeções reanimadoras às nossas ideologias políticas e sociais.  Preferimos pessoas, livros, jornais e revistas que compartilham nossos próprios e esclarecidos valores.

Ao nos cercarmos, dessa forma, de pessoas que dizem sim, limitamos as chances de nossas opiniões serem contestadas.

Os partidários de Lula tiveram de levar essa estratégia a níveis dramáticos durante o episódio do mensalão.  Enquanto acumulavam evidências de arrombamentos com fins políticos, suborno, extorsão, caixa dois de campanha e outras diversões impróprias para um presidente da república, as pesquisas de opinião mostravam que os partidários de Lula desenvolviam uma conveniente perda de interesse na política.  Dessa forma, foram capazes de preservar a comovente fé na adequação de seu presidente como líder do país (em contraste, os brasileiros que se opunham à presidência de Lula não se cansavam de desfrutar das divertidas audiências da CPI na TV senado).

Entretando, nossa visão subjetiva e limitada do mundo é apenas o começo.  Inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, seremos confrontados com contestações às nossas crenças, seja a visão que o defensor da teoria de que a Terra é plana tem da suave curva do mar no horizonte ou do retorno de mãos vazias do inspetor de armas que foi ao Iraque.  Contudo, mesmo diante de evidência em contrário, nossas crenças são tão ternamente protegidas como nossos egos.  Assim como qualquer informação que espete nossa auto-estima, uma evidência contrária a nossas crenças é submetida a exame minucioso, crítico e quase sempre de recusa.

A fé que temos na infalibilidade de nossas crenças é tão poderosa que somos até capazes de criar uma evidência para provar que estamos certos. É possível que o efeito placebo, no qual um falso tratamento faz, de alguma forma, você se sentir bem apenas porque pensa que está recebendo um remédio eficaz para seu mal, seja o mais conhecido exemplo disso.

Até aqui, nossa relutância em vistoriar o mundo com uma mente aberta parece ser pouco recomendável.  Haverá algum benefício em potencial desta obstinação? Psicólogos observam que uma quantidade módica de obstinação antes de abrirmos mão de nossas crenças faz sentido.  Afinal, terminaríamos em um certo estado mental de agitação e confusão se nossas crenças flutuassem ao sabor de notícias de jornal ou discussões com parentes.  Também faz sentido que nossas crenças centrais sejam uma parte integral de quem somos. Dar adeus a uma crença é perder uma parte querida de nossa identidade.

O que faz então com que as crenças se apossem de forma tão imediata e tenaz de nossos cérebros?  Uma resposta é que a culpa seja de nossas ricas, criativas e em geral espúrias explicações das coisas.  Você ouve um boato de que a filha adolescente de uma amigo está grávida.  Ao discutir com outro amigo a incerta situação dela, você chama a atenção da lamentável insistência dos pais em tratar adolescentes como se fossem adultos, a atitude laissezfaire da mãe em relação a ter hora para voltar para casa e as roupas sensuais com que deixavam a filha aparecer em público.  Diante de tal liberdade permitida pelos pais, a delicada situação da jovem torna-se tragicamente inevitável.  Como resultado, quando você toma conhecimento de que a falada gravidez é da filha de outra pessoa, você se pega pensando secretamente que é apenas uma questão de tempo até que a difamada moça passe pelo mesmo infortúnio.

Nossa suscetibilidade às primeiras impressões é piorada por um outro sentimento humano, muito cativante.  Somos criaturas crédulas e achamos que acreditar é fácil, enquanto duvidar é difícil. 

Mas será que podemos fazer algo para reduzir os vergonhosos e, em geral, perigosos efeitos de nossa teimosia e presunção? Neste ponto textos de psicologia gostam de fazer algumas sugestões de como podemos vencer as obstinadas tendências de nossas mentes.  “Considere hipóteses alternativas”, é o que nos dizem. “Considere a evidência em contrário.”

O problema, sem dúvida, é que temos certeza de que já fazemos isso; o que acontece é que a opinião da outra pessoa é absurda, e seus pensamentos são risivelmente frágeis!

2 comentários:

Anônimo disse...

Para aqueles que se interessam pelos "mecanismos" que operam nossas mentes, recomendo o livro: A Pré-história da mente, de Steven Mithen. É um trabalho muito interessante sobre a evolução da mente humana desde os tempos em que o humano não era ainda humano (?) até os dias de hoje.

K Melo Tetilla.

Dalbi disse...

Tetilla, muito obrigado pela dica e pela 'audiência'.
Abs.,
Dalbi