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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Explicando as ‘teorias conspiratórias’

As teorias da conspiração são o motor de muitas e muitas teses de mestrado, principalmente em butecos e rodas no café. Pois não é que descobriram que isto nada mais é que mais um ‘defeito’ de nossa mente, que busca padrões e significados para tudo que não se entende completamente.

Com a tendência que temos em dar um significado psicológico aos fatos, acreditamos que o tamanho de um evento tem que ser igualmente importante ao que o motivou, a sua causa. Veja, por exemplo, a morte da princesa Diana. Ela era uma grande celebridade e sua morte foi ocasionada por não usar cinto de segurança. Isso não parecia ter a magnitude para a pessoa que era. Precisaria de uma explicação mais espetaculosa. E foi o que ocorreu. Disseram que ela foi assassinada de diferentes maneiras. O caso de 11 de setembro também é parecido. Foi uma conspiração organizada por 19 membros da Al Qaeda que quiseram derrubar edifícios nos EUA. Mas, para muitas pessoas, isso não foi suficiente para explicar o grande evento que chocou o mundo. Disseram que era uma conspiração armada pelo governo Bush.

Bin Laden não morreu

Autor : Guilherme Pavarin

E o 11 de setembro foi manobra de George W. Bush, bem como a AIDS é uma invenção do homem – que nunca esteve na Lua. O psicólogo Michael Shermer explica por que essas teorias da conspiração fazem parte da natureza humana

Em 1983, o psicólogo, historiador e escritor americano Michael Shermer achou que tinha sido raptado por ETs. A crença surgiu enquanto participava do Race Across America, uma maratona de bicicleta de 2880 quilômetros pelas estradas dos Estados Unidos. Sem dormir há 83 horas, seu cérebro apagou. Quando a equipe de socorro chegou para buscá-lo, Shermer tinha certeza que eram seres de outro planeta. Foram necessárias muitas horas de sono para que percebesse, com clareza, que tudo havia sido um delírio. O episódio foi tão marcante para Shermer, que, depois de estudar por anos os motivos que nos levam a acreditar em teorias tão absurdas, acaba de lançar um livro sobre o assunto The Believing Brain From Ghosts and Gods to Politics and Conspiracies How We Construct Beliefs and Reinforce Them as Truths (sem edição brasileira). No livro, ele explica que a culpa de vermos ETs e criarmos teorias conspiratórias é a tendência que nossa mente tem de encontrar padrões e significados em tudo. Queremos correlacionar o tempo todo. Por isso é difícil acreditar que o atentado de 11 de setembro, 10 anos atrás, foi planejado por 19 terroristas. Nosso instinto é procurar uma explicação tão impactante quanto as explosões, como um plano organizado pelo então presidente americano, George W. Bush, por exemplo.

* Você diz no livro que nossas crenças ditam o que vemos e são elas que nos fazem criar teorias conspiratórias. Como é isso?
Michael Shermer:
Nossos cérebros são, por natureza, geradores de crenças. Começa com a identificação de um padrão muito simples, às vezes real, às vezes não. Um jogador pode atribuir sua vitória por não ter se barbeado e sempre evitar aparar os pelos antes dos jogos. Procuramos os padrões para atribuir sentido a eles e isso forma nosso entendimento da realidade. É assim desde nossos ancestrais, está ligado à nossa evolução. Pense num homem que vivia milhares de anos atrás, na África, e ouve um ruído no mato. Ele pode considerar que se trata de um animal perigoso ou apenas um vento. Se acreditar que é o vento e de lá sai um leão, o homem vira almoço. Não há mais descendentes. A seleção natural, então, está ligada a acreditar que todos os ruídos no mato são padrões de um perigo real. Por consequência, nosso comportamento habitual é sempre supor que os padrões que identificamos – verdades, superstições ou o que for – são reais. Na maioria das vezes, ignoramos as informações que vão contra eles. A crença vem antes da racionalização.

* Pode-se dizer que criar esse tipo de crença é instinto?
Shermer:
Sim. E nós somos muito bons em agir de modo instintivo. É o que chamamos de cognição rápida. Somos particularmente bons em julgar as outras pessoas muito velozmente. Em frações de segundos sabemos, pela expressão do outro, se devemos confiar nele ou não, por exemplo. Mas somos muito ruins em entender probabilidades e chances. Nossos cérebros instintivamente buscam correlações.

* Como uma crença evolui para teorias da conspiração?
Shermer:
Teorias da conspiração são tipos de padrões. Pode ser também a propensão a dar significados aos padrões envolvendo agentes invisíveis – como extraterrestres e organizações secretas. Junto a isso, há uma predisposição do cérebro humano em buscar evidências para confirmar a tese e, também, para recontar o que se sabe sobre o fato usando outras explicações, aproveitando algumas brechas na história. O problema das teorias da conspiração é que nem todas são irreais. Pouco antes da Primeira Guerra Mundial, o arquiduque Francisco Ferdinando foi assassinado por uma sociedade secreta sérvia chamada Mão Negra. Abraham Lincoln também foi vítima de uma conspiração.

* Mas o que faz a maioria das teorias parecerem absurdas?
Shermer:
Com a tendência que temos em dar um significado psicológico aos fatos, acreditamos que o tamanho de um evento tem que ser igualmente importante ao que o motivou, a sua causa. Veja, por exemplo, a morte da princesa Diana. Ela era uma grande celebridade e sua morte foi ocasionada por não usar cinto de segurança. Isso não parecia ter a magnitude para a pessoa que era. Precisaria de uma explicação mais espetaculosa. E foi o que ocorreu. Disseram que ela foi assassinada de diferentes maneiras. O caso de 11 de setembro também é parecido. Foi uma conspiração organizada por 19 membros da Al Qaeda que quiseram derrubar edifícios nos EUA. Mas, para muitas pessoas, isso não foi suficiente para explicar o grande evento que chocou o mundo. Disseram que era uma conspiração armada pelo governo Bush.

* Vemos pessoas que criam mais teorias conspiratórias que outras. Há uma explicação científica para isso?
Shermer:
Há uma explicação química. Estudos de neurociência observaram que alguns neurotransmissores do cérebro como a dopamina estão relacionados ao aprendizado. Quanto mais dopamina você tiver, mais padrões encontrará, mais associações fará. E isso significa que pessoas com altas quantidades de dopamina estão mais suscetíveis a encontrar conspirações e a identificar todas as coisas como padrões. Elas precisam balancear melhor suas análises. Você não pode inibir a criatividade acreditando em nada, mas também não precisa ser tão cabeça para criar essas teorias o tempo todo. Criatividade vem de padrões incomuns associados. Isso é bom. Mas se você achar que tudo é um padrão, você não tem filtros, ocasionando problemas de conexão. Pode, com o tempo, achar que as pessoas estão falando de você o tempo todo e passar a ouvir vozes. Esse excesso de padrões extremo é o que se chama esquizofrenia e necessita de medicamentos para abaixar o nível de dopamina.

* Você vivenciou uma experiência de teoria conspiratória e acreditou estar sendo raptado por extraterrestres. Como foi isso?
Shermer:
Tive uma alucinação ao competir no desafio de bicicleta Race Across America. Eu estava fisicamente exausto, havia percorrido 2.014 quilômetros em 83 horas. Quando a equipe de ajuda da competição interveio para me fazer parar e descansar dentro de um motor home, acreditei que eram ETs me forçando a entrar num UFO. Acreditei completamente que fosse real. Por isso quando as pessoas dizem que tiveram essas experiências, eu acredito. O cérebro é um motor de crenças. Temos uma aparelhagem que discrimina o que aconteceu na nossa cabeça e fora da nossa cabeça mas, dependendo do funcionamento e da saúde do nosso corpo, isso pode ser afetado.

* Você acredita em ETs?
Shermer:
Bem, não chega a ser uma crença. Faço uma distinção entre acreditar que os extraterrestres estejam lá, em seus planetas, e achar que eles vieram para cá. Há poucas evidências para isso. Parece-me mais um fenômeno psicológico, algo que ocorre dentro da cabeça das pessoas.

* O trecho sobre a crença em ETs está no mesmo capítulo sobre a crença em deuses e em coisas improváveis. Podemos dizer que o processo que nos faz acreditar em ETs é o mesmo que nos faz acreditar em Deus?
Shermer:
Sim, Deus é um padrão aberto. É a explicação para tudo, para se construir padrões e se tomar decisões com base nisso. Pode-se dizer que é o mesmo processo que nos faz criar teorias sobre alienígenas, que também são, de certa forma, agentes que influenciam e explicam padrões para algumas pessoas. No meu livro escrevo que há mais de mil deuses em mais de 10 mil linhas religiosas. Como algum deles pode estar certo e outros errados?

* É difícil reverter uma crença?
Shermer:
Bem, educação é um grande começo para reverter. Educação científica, precisamente. Mas não só a educação científica e técnica que diz como o mundo e as coisas funcionam. Tem que mostrar também como as ciências funcionam.

* Você enxerga algo positivo nas teorias conspiratórias?
Shermer:
Acho que é bom o ceticismo que as caracteriza. Há algo muito positivo em não acreditar em todas as explicações governamentais, por exemplo. As pessoas mentem o tempo todo, logo, é sempre bom ter uma forma de desconfiança. O problema é que às vezes se vai longe demais. Se você acreditar que tudo é uma conspiração, você perde o senso de realidade. Acho que existem conspirações verdadeiras ainda hoje, mas acreditar em todas as teorias conspiratórias é muito prejudicial.

2 comentários:

fabio k sampaio disse...

Estou longe de ser devoto das teorias conspiratórias, mesmo por que, a indústria cultural da banalização que permeia os meios de comunicação, e, em particular a blogosfera, acaba por liquefazer num mesmo balaio reflexões e informações de teor aprofundados e essenciais a novos conhecimentos, com discursos autocontemplativo, narcisistas e prontos para uma oferta no cartão de crédito. Ou seja, Fernanda Montenegro e Mulher Melão podem valer a mesma pataca se a intenção final for mesmo impactar e vender notícia.

Mas, Dalbi, meu caro amigo, como dispomos deste espaço para justamente afiar o discernimento e nutrir-nos de diversas referências de aprendizado, acho importante sugerir um contraponto, ou antes, um adendo a entrevista com o psícologo Michael Shermer. De cara, vou já avisando que, tenho dois pés atrás com algumas pesquisas de neurociências. Não entrando no mérito de suas provas legítimas e avanços, mas alertando que estas são tão passíveis de manipulação e picaretagem quanto ás teorias conspiratórias. Assim como fazem os métodos seculares das religiões. Não é esse o caso do dito historiador e psicólogo que por sinal assim define o Wikipédia: - Ateu cético, famoso por seus estudos em psicologia experimental e como porta voz da comunidade cética.

fabio k sampaio disse...

Retomando ao contraponto proposto, assistindo a uma palestra num dia desses, fui apresentado à produção intelectual e cientifica de um físico e filosofo contemporâneo chamado Bernard D’Espagnat, cuja produção estou em busca e entrei em contato pelas fontes virtuais, e são bastante pertinentes para a reflexão iniciada neste comentário. Autor da obra La recherche du reél; Obra reconhecida pelo rigor científico, Bernard D’Espagnat nos dá a possibilidade de considerarmos, a uma nova luz, uma nova comunicação entre os diferentes campos do pensamento, não se trata de uma obra de pendor ocultista ou místico, parapsicológico ou místico. Diante de uma evidente transgressão das regras do jogo científico, sua obra abre para a interrogação filosófica, particularmente metafísica, enquanto reflexão que ultrapassa a experiência e o poder do conhecimento físico matemático.

Bernard D’Espagnat, assim como outros tantos pensadores, cientistas e filósofos desprezados pelos paradigmas neopositivas em relação às transgressões para fora do” operacional”, nos dá afirmativas sobre a consciência da incompletude de qualquer espécie de saber, tomando por base as atuais pesquisas da mecânica quântica.
Nos tempos de Einstein e nos primórdios da mecânica quântica, os físicos mostraram interesse particular nas grandes questões filosóficas em particular a metafísica. Hoje essa atitude é rara e tal fato não será alheio ao sucesso à condenação positivista da metafísica. Bernard mostrou-se particularmente sensível ao choque ontológico que a física quântica pode desencadear, a propósito duma realidade independente, não separável, exteriorizada e de matriz Aristotélica, esteio do pensamento Ocidental.
O essencial da obra da mensagem de Bernard D’ Espagnat consisti em nos mostrar que se se pode encontrar um meio de fundamentar a objetividade do conhecimento nas ciências, o objeto que nos darão acesso está longe de esgotar o real. Uma realidade densa e muito profunda se esconde por detrás do mundo empírico.
É por que conhecemos que podemos dar conta do que nos é quase incognoscível.
Fica aí a dica deste Físico .
E no resumo da ópera, Shermeer nos deixa um legado e tanto, vejamos:- Há algo muito positivo em não acreditar em todas as explicações governamentais, por exemplo. As pessoas mentem o tempo todo, logo, é sempre bom ter uma forma de desconfiança. O problema é que às vezes se vai longe demais, Se você acreditar que tudo é uma conspiração, você perde o senso de realidade. Já, no objeto das Crenças, quando Shermeer questiona por que alguns Deuses poderiam estar certos e outros errados, logo me lembro desta idéia caduca dos que acabam por crer num Deus “Ciência”, dual, e regido por leis reais de mercado.