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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Comércio canta, indústria dança

A criseFonte : Vinicius Torres Freire – FSP (na íntegra abaixo)

Varejo cresce muito mais que produção industrial, que deve entrar em "recessão" neste ano

FAZIA TEMPO que a produção da indústria não ia tão mal. É preciso descontar o colapso de 2008/9, porém totalmente importado. Afora isso, na década passada, desempenho ruim como o de agora se viu apenas no início do governo Lula (2003, início de 2004). Mas aí também se tratava de um rescaldo da crise de 2001/2 (apagão, Argentina, bolha pontocom nos EUA, medo dos efeitos da eleição de Lula).

Devemos ter recessão industrial neste ano. Além do mais, pelo andar da carruagem deste último trimestre, a indústria vai arrastar ainda mais o PIB para baixo.

Outro sintoma do mal-estar da industrialização brasileira aparece numa rara discrepância entre os desempenhos do comércio e da produção industrial (mais precisamente, entre as variações das vendas do varejo, ampliado ou não, e da produção da indústria de transformação, acumulados em 12 meses).

Com exceção do período de colapso da indústria que se seguiu à crise de 2008, no decorrer da década passada nunca antes as vendas do varejo haviam corrido tão à frente da produção industrial.

Ou seja, o volume de vendas cresce, mas a produção da indústria não. Nos últimos 12 meses (até setembro), o varejo vendeu mais 7,6% -até dezembro de 2010, o aumento havia sido de quase 11%. A indústria de transformação cresceu 1,1% até outubro (expansão acumulada nos últimos 12 meses).

Observe-se que os dois setores, comércio e indústria, nem sempre precisam dançar no mesmo ritmo. Mas dançar músicas diferentes, uma delas meio fúnebre, outra bem animada, é sinal de algum problema. Ou de muito problema.

A conclusão mais óbvia sobre o descompasso entre comércio e indústria é que estamos comprando mais produtos importados. Porém essa é apenas parte da história. A indústria cresce pouco também porque está exportando pouco. Ou seja, o real forte favorece importações, prejudica exportações, blá-blá-blá.

Mas se trata ainda de uma explicação parcial. O câmbio é um fator importante, mas há mais.

As empresas exportam menos porque a demanda mundial está fraca. Japão, Europa e Estados Unidos crescem muito pouco ou vão embicar de novo em recessão (caso da eurozona). Para piorar, o complexo China e cia. asiática, que também sofre com a lerdeza econômica do mundo rico, empurra mais produtos para cá e disputa mais mercados com os produtos brasileiros.

Por fim, entre os fatores conjunturais mais importantes, o ritmo do investimento vem caindo no Brasil.

Cai devido à desaceleração doméstica em relação ao ano excepcional de 2010. Cai devido ainda aos temores das empresas em relação ao futuro da confusão na economia mundial. Mas cai também porque a despesa do investimento do governo federal baixou bem neste ano.

O gasto em investimento ("obras") é a rubrica importante das despesas públicas que sofreu o maior corte, em termos relativos. Como de costume, o investimento paga o pato do ajuste fiscal.

O ano que vem será de crescimento muito baixo no mundo rico. A variação do câmbio pouco vai ajudar a indústria. O governo, pois, precisa retomar os investimentos. Mas como fazê-lo sem estragar as contas públicas, já que não consegue poupar em outras áreas?

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