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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Sim falta, falta gente… boa.

Excelente entrevista de Viviane Taguchi com Jeffrey Abrahams - conceituado head hunter, joga uma luz sobre o tema do atual mercado de trabalho e deixa muito claro do que o mercado precisa, esclarecendo entre tantos temas, porque sobram vagas se tanta gente precisa trabalhar.

Um profissional com perfil para ocupar cargos estratégicos nesse mercado tem de ter três características básicas: capacidade cognitiva, porque ele tem de ter o mínimo de inteligência, e capacidade de raciocinar; competência interpessoal, que é a habilidade em saber trabalhar com pessoas, administrar conflitos com sabedoria e assumir seus erros; e o autoconhecimento, que é fundamental. As empresas exigem tudo de um profissional, mas uma pessoa só nunca vai atender a todas essas exigências, então, é preciso saber quais são seus pontos fortes para valorizá-los e saber lidar com os pontos fracos. É o que eu chamo de executivo transgênico, aquele que se molda.

 

Head-hunter afirma: “Existe um apagão de talentos”

Jeffrey Abrahams, sócio-fundador da Abrahams Executive Search, fala sobre novas profissões e o mercado agro

por Viviane Taguchi – Revista Globo Rural

Antes, quem tinha o poder eram as empresas. Hoje, são as pessoas talentosas.” A afirmação é do caça-talentos (um headhunter, na linguagem dos negócios) Jeffrey Abrahams, sócio-fundador da Abrahams Executive Search. Americano naturalizado brasileiro, ele se especializou em encontrar pessoas preparadas para assumir cargos de chefia em empresas, estrangeiras ou nacionais, que passaram a atuar no agronegócio brasileiro nos últimos anos. Lidar com os conflitos de gerações, com a imaturidade emocional de jovens com diplomas de peso e administrar o conhecimento digital têm sido os principais desafios do mercado, e, por isso, quem tem talento para lidar com crises e atuar sob pressão terá sempre boas ofertas de trabalho e salários altos.

Globo Rural - O que mudou no mundo dos negócios? O agronegócio foi o responsável por provocar as mudanças no mercado de trabalho ou o contrário?
Jeffrey Abrahams -
Tudo ao mesmo tempo. Atuo no agro há três décadas e posso dizer que assisti a tais mudanças de camarote. Houve um movimento mercadológico que colocou o Brasil, que já tinha a agricultura forte, na crista da onda da economia. Temos tudo que o resto do planeta quer: clima bom, sol o ano todo, topografia favorável e uma gente boa, que não gosta de briga e precisa trabalhar. Nossa agricultura, sobretudo a produção de grãos e de cana-de-açúcar, despertou a atenção do resto do mundo, e as empresas estrangeiras, que já tinham elevado grau de profissionalização, vieram para cá. Elas vieram atrás de etanol, de soja, de algodão, e os empresários agrícolas brasileiros perceberam que precisavam se modernizar rápido para lidar com essa gente. Ao mesmo tempo, as empresas estrangeiras demandaram mão de obra com conhecimento. Eles precisavam de funcionários brasileiros, que conheciam o mercado, a legislação e a era digital, não somente para operações, mas para a gestão. Então, o agro mudou o mercado de trabalho, e vice-versa.

GR - Como e quando essas mudanças começaram a alterar o mercado?
Abrahams -
Quando o debate sobre a crise dos alimentos e dos recursos energéticos assustou a Europa, a Ásia. Daí, eles olharam para o Brasil. Quem começou essa revolução de gestão foi o setor sucroalcooleiro. Tradicionalmente, as usinas eram administradas por famílias, descendentes de italianos ou de senhores de engenho, e de repente o interesse estrangeiro no etanol forçou o segmento a se profissionalizar. Os chefes de família foram para os conselhos administrativos, e os executivos, gente que entende de finanças, administração, mundo digital, agronomia e fala várias línguas, assumiram as diretorias. Depois, o setor de grãos seguiu o mesmo caminho. Nas lavouras, essas mudanças foram marcadas pelo emprego de tecnologia. A produção agrícola nacional usa tecnologia de precisão, coisa que no passado era impensável.

GR - Essas mudanças geraram novas profissões, quais são elas?
Abrahams -
Sim. Hoje, quem atua no agro precisa de gestores eficientes, de comunicadores, de profissionais de redes sociais, de sustentabilidade, de rastreabilidade. No campo, o trabalho exige conhecimento em tecnologia de precisão, clima, mecânica, informática. O comércio de commodities demanda profissionais do mercado financeiro, e a pesquisa cientistas genéticos. Todos têm de saber atuar sob pressão, trabalhar em equipe, falar línguas, inglês e talvez o mandarim. Também vai ter de haver muito terapeuta para administrar o estresse desse pessoal.

GR - E é difícil encontrar esses profissionais?
Abrahams -
Muito difícil. Antes, as empresas é que tinham o poder; hoje, são as pessoas talentosas. Há uma dificuldade enorme em contratar executivos. A demanda é muito maior que a oferta, por isso, os talentos já detectados sempre têm três, quatro ofertas e salários cada vez maiores. Eu acho que a coisa mais difícil que tem é encontrar um diretor agrícola. Ele tem de ter sabedoria, ter conhecimento digital, falar línguas e pensar como um arquiteto de soluções.

GR - Por que falta, se temos milhares de profissionais no mercado?
Abrahams -
Temos um apagão de pessoas, não em números, mas de profissionais que vão ao encontro dos objetivos das empresas. Não basta ter formação técnica. Um profissional com perfil para ocupar cargos estratégicos nesse mercado tem de ter três características básicas: capacidade cognitiva, porque ele tem de ter o mínimo de inteligência, e capacidade de raciocinar; competência interpessoal, que é a habilidade em saber trabalhar com pessoas, administrar conflitos com sabedoria e assumir seus erros; e o autoconhecimento, que é fundamental. As empresas exigem tudo de um profissional, mas uma pessoa só nunca vai atender a todas essas exigências, então, é preciso saber quais são seus pontos fortes para valorizá-los e saber lidar com os pontos fracos. É o que eu chamo de executivo transgênico, aquele que se molda.

GR - As universidades ensinam isso aos profissionais?
Abrahams -
No geral, são as experiências vividas que agregam sabedoria às pessoas. Temos muita dificuldade de lidar com a geração Y, que são aqueles filhos cujos pais sempre fizeram tudo para eles. Esses jovens geralmente estudaram em bons colégios, têm diplomas de instituições de peso, mas são imaturos emocionalmente. Mas a tendência é termos executivos cada vez mais jovens. No entanto, eles sempre vão querer um profissional experiente por perto.

GR - E como o empregador saberá se o profissional tem esses talentos?
Abrahams -
Os profissionais de RH experientes sabem identificar perfis em três minutos de conversa. A experiência com pessoas nos ensina, mas muitas empresas precisam melhorar nisso. Hoje, existe um equívoco grande nas contratações, pois 90% são contratados por suas qualificações técnicas, mas 95% das demissões são geradas por fatores comportamentais. Há um desequilíbrio. O ideal é observar o comportamento das pessoas em momentos difíceis, de crise. É no meio de uma grande crise que os talentos se sobressaem. Sabe aquele momento em que o cara está com a faca no pescoço?


GR - E o setor de agronegócio, que já passou por todas essas mudanças, vai mudar mais?
Abrahams -
Eu acho que o setor está muito avançado. O que vai acontecer é que vamos nos aperfeiçoar mais, porque o Brasil continuará no radar de interesse de grupos estrangeiros, de países desenvolvidos e de emergentes. As mudanças mais profundas devem ser sentidas no campo cultural, pois os países da América do Sul tendem a se integrar para formar um grande bloco negociador, e a profissionalização do setor fará cair alguns conceitos culturais. O mundo mudou, as relações mudaram e o dinheiro mudou de mãos. Então, os executivos latino-americanos também precisam mudar.


GR - E que tipo de profissional não tem mais espaço nesse novo mercado?
Abrahams -
Sabe aquele gestor do tipo ditador, que grita, xinga e esmurra a mesa? Esse não terá mais espaço em nenhuma empresa, em nenhuma fazenda. O bom gestor sabe cobrar resultados e falar com as pessoas, e o bom funcionário é aquele que exige respeito. Respeitar os seres humanos acima de tudo é fundamental para o sucesso nos negócios, no agro ou fora dele. Quem tem ética tem pontos positivos.

2 comentários:

Marcos da Cunha Ribeiro disse...

Este é um tema bastante atual e me interro sobremaneira por ele.
A entrevista é boa mesmo e as posições do Abrahams é muito coerente.
Não posso concordar com o primeiro parágrafo que imagino não tenha sido dele.
A questão de estar pronto ou não para funções estratégicas e apresentar capacidades cognitivas de relacionamento e empatia mais o autoconhecimento é perfeitamente exequível para qualquer profissional que tenha sido desenvolvido na vida com uma boa educação total incluindo um 3o grau de qualidade e que tenha em seu plano de vida e de carreira o contínuo auto desenvolvimento como meta.
As empresas podem tambem querer somente os caras prontos e aí sim ficam brigando entre elas para roubar o mais pronto a cada turno de necessidade. Auto flagelação das gestões equivocadas de RH.
Pessoas e cultura de empresa precisam de tempo . Abrahams tem razão : as pessoas hoje tem o poder. MAs quem tem o poder é o proativo , consciente.
MAis sobre o tema no Notas Livres ou na Carpsi Newsletter !!!
Abraço
MArcos

Dalbi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.