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terça-feira, 24 de julho de 2012

A ‘desvida’ moderna

O diabo mora nos detalhes, e segundo Denise Fraga Deus também. Deus é o bem, Diabo é mal, são as forças motrizes da roda da vida. E ambas, não por coincidência, moram nos detalhes.

Detalhes estes que estão acabando, a tecnologia que junta quem está distante ao mesmo tempo que distância quem está perto, é responsável por acabar com os detalhes da vida. Não fazemos mais nada detalhadamente, tudo que é detalhado, alguém faz por você. Desde sua comida, até a leitura do seu jornal, passando pela decoração da sua casa, e por sua diversão em frente a TV (?).

É assim mesmo, vai ser sempre assim, a saudade do que passou a certa altura da vida tende a trazer a tona estes sentimentos. Quer fazer um teste ? Tente explicá-los a uma criança, e você entenderá que os detalhes estão neles a vida está neles, que ainda não tomados pela rotina da vida, ainda vêem sabor nas coisas, formigas no chão, pingos de chuva, amargo na salada, e diversão na TV.

Denise Fraga também brincou com o tema em seu blog, vale a pena ler…

Precisar, não precisa – Denise Fraga

Tenho medo da palavra "prático". Sempre me parece que o que é prático nos tira alguma coisa.

Acho que tudo começou no dia em que cheguei da escola e vi cortado o abacateiro do quintal da minha infância.

"É mais prático. Suja muito" --disse minha avó.

Eu não podia acreditar. Já não bastava terem cimentado o gramadinho onde eu fazia incríveis florestas, agora eu teria apenas aquele toco no meio do cimento para sentar. Francamente! Não gosto do que é prático. Prático me parece mínimo, sem detalhes. E Deus mora nos detalhes.

No mês passado, estive em temporada no centro do Rio. Fazia tempo que eu não andava por lá. Tentei achar um restaurante onde eu costumava ir almoçar com meu pai. Era uma dessas tabernas da Lapa, pequenas, baratas e com comida maravilhosa --vinda de uma senhora portuguesa escondida na cozinha.

Procurei loucamente pelas ruazinhas atrás da Cinelândia e quis gritar de alegria quando vi o mesmo letreiro ainda na porta.

O lugar era o mesmo, mas tinha sido azulejado, os quadros, retirados das paredes e a comida, agora, era cobrada a quilo. Uma fila para servir, outra para pesar, bandejas, talheres ensacados, sachezinhos de sal e nem sequer um caldeirão de caldo verde ou uma lasca de bacalhau que fosse no bufê.

Achei que tinha mudado o dono e apenas mantido o nome, mas, quando olhei pelo quadradinho que dava pra cozinha, lá estava, curiosamente, a mesma senhora, castigada pelo tempo e pelo que é mais prático e econômico.

Lembrei-me da minha avó. Também prática. Também portuguesa. Quando mandou cortar o abacateiro ainda fazia sua própria massa de pastel. Viva fosse, talvez já tivesse se rendido à massa pronta, comprada no supermercado. Teria meu perdão. Quem pode resistir ao que é mais prático e econômico num mundo que justifica tudo pelo custo e pela eficiência?

Mas será que preciso mesmo ficar sacudindo travesseirinhos de sal úmido pelas mesas? Não consigo dizer porque uma coisa tão banal me provoca tanto mal-estar, mas sei exatamente o conforto que me dá um guardanapo de pano furadinho num restaurante decadente que não se rendeu ao bufê a quilo.

A felicidade não é prática e econômica. A felicidade mora nos becos. Quer coisa mais prática e econômica do que uma sala iluminada por uma lâmpada fluorescente? Quer coisa mais triste?
Se tivesse ido ao restaurante para jantar, acho que choraria na calçada.

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