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domingo, 19 de agosto de 2012

Bons tempos

Dizem que bons tempos são aqueles guardados lá no fundo do baú da vida, eu luto para manter a crença de que os bons tempos ainda estão por vir.

Ao mesmo tempo, evito trazer futebol aqui para o blog, mas hoje trarei um posto do Piva no Blog do Juca, que é de futebol, mas não é bem de futebol, é sobre os bons tempos. Espero que gostem…

Deu rebote

Por LUIZ GUILHERME PIVA

Dupla era assim: um time, de dois, ficava no gol. O outro, idem, dava três chutes cada jogador e, enquanto um deles chutava, o outro ficava perto dos goleiros pro rebote – que podia ser de primeira ou com jogada, quando um dos goleiros saía pra enfrentar os dois adversários no “dibre”.

E aí é que era bom. Cada rebote durava duas luas, dezesseis sóis, setenta tempos, cem vezes. E nem almejava o gol: a jogada virava a coisa maior, sem fim, sem trama, sem lógica, sem ganhos futuros, só mais mil dribles, mil erros, recuos, avanços, quantidades, milhões, multidões, até que uma era ou outra saía gol ou a bola ia pra fora.

E então outros chutes e novos rebotes – tão longos, tão longe, que as traves se perdiam da vista e da lembrança.

Podia ser na serraria que virou depósito que fechou mas não desligou a serra, no beco em que havia pinguela que virou pontezinha que virou aterro que ninguém mandava ladrilhar, no quintal que virou terraço que virou piscina, que ganhou um muro dividindo os times, na varanda que tinha a cadeira dele que ficou vazia, na rua de terra em que se faziam fogueiras que ganhou pés-de-moleque em que se descia de rolimã que viraram paralelepípedos em que se subia de bicicleta que viraram asfalto em que estacionavam caminhões que se desintegraram no qual sobem garotos antigos e descem enterros novos.

Parece um rebote, uma jogada que não acaba, que se afasta das traves, que não tem rumo, que esquece a razão de ter começado, que faz sumir de vista as traves, a rua, o quintal, a varanda, o beco, a serraria, correndo atrás da bola, sem nada em volta, a multidão de vitral, “dibrando” sem memória nem alvo, a alma e a cabeça vazias, só o barulho da serra, o barulho da serra, o barulho da serra, o barulho da serra.

E mais nada.

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