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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Fleury e o Pavilhão 9

Entrevista de Fleury ao site Terra. Correlaciona o massacre de 1992 com seu não futuro político.

“Se não tivesse acontecido, talvez eu fosse presidente da República”

Vinte anos se passaram do massacre do Carandiru, e o episódio, que deixou 111 mortos no dia 2 de outubro de 1992 na Casa de Detenção de São Paulo, ainda é diretamente associado ao nome de Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB), 63 anos, então governador do Estado. Ele, que nega ter dado a ordem para que a Polícia Militar invadisse o presídio durante a rebelião no Pavilhão 9, nunca foi processado criminalmente. Entretanto, diz ter sofrido uma 'punição política' nas últimas duas décadas: 'a responsabilidade política é minha. Eu tive a minha punição e não fujo dela', afirmou.

Fleury conversou com o Terra em seu escritório de advocacia, na zona oeste da capital paulista, por cerca de uma hora e meia, sobre o episódio. Durante a entrevista, ele relatou em detalhes o que se lembra daquele fim de semana, lamentou o desfecho da ação, mas defendeu sua política de Segurança Pública que, em sua opinião, foi um dos maiores legados de seu governo. O político nega que a principal facção criminosa de São Paulo – o Primeiro Comando da Capital (PCC) – tenha surgido devido ao massacre. Prefere creditar a sua criação à 'fraqueza' dos governos que o sucederam.

Na opinião dele, não fosse o episódio, teria chances de disputar a Presidência da República, em 1994. 'Seria muito melhor que não tivesse acontecido, e talvez eu fosse presidente da República', afirmou. Leia os principais trechos da entrevista:

Terra – Qual a sua lembrança do dia 2 de outubro de 1992?

Fleury - Era uma sexta-feira, véspera das eleições municipais de 92. Eu fui para Sorocaba para andar pela cidade com o (então candidato a prefeito do município pelo PMDB) Paulo Mendes. Quando foi por volta de umas 3 horas da tarde, aproximadamente, o secretário de Governo, Cláudio Alvarenga, me ligou dizendo que estava havendo um movimento, uma rebelião na Casa de Detenção. Eu disse a ele: 'é grave?', ele falou: 'não, segundo a informação, a rebelião está sob controle'. (Ao que Fleury respondeu) 'Então fala para esgotar a negociação e me mantém informado'. Almocei, e por volta de umas 4h30 (da tarde), 5 horas, pegamos o helicóptero para voltar para São Paulo. E é bom ressaltar duas coisas. Primeiro: o rádio do helicóptero só se comunicava com o rádio do próprio sistema de voo. Não existia celular, ao contrário do que aparece no filme Carandiru. E não havia um rádio de comunicação direto com a Secretaria de Segurança. Então, quando nós descemos no Palácio dos Bandeirantes, a invasão já havia ocorrido. O secretário me ligou, era o Pedro Franco de Campos, dizendo que tinham ocorrido cerca de 40 mortes, e eu fui dormir com essa informação. No dia seguinte, quando eu fui votar, a imprensa me questionou dizendo que tinha mais de cem mortos. Liguei para o secretário (de Segurança Pública) e disse a ele: 'muito bem, só fale com a imprensa quando você tiver o número exato”. Isso foi interpretado como uma manobra para esconder o número de mortes, já que eu tinha candidato a prefeito de São Paulo. Não havia a menor intenção de esconder nada. Eu só queria passar uma informação correta para a população. Eu diria duas coisas: por todas as informações que eu recebi, a ordem de entrar no presídio foi absolutamente correta e legítima. Se eu estivesse no meu gabinete eu teria dado a ordem. Mesmo hoje, sabendo de todas as consequências, eu daria a ordem para entrar. Segunda coisa que eu gostaria de deixar bem claro: houve uma tentativa grande no sentido de me responsabilizar criminalmente pelos fatos. Isso atrasou o processo. É o que eu digo sempre: a responsabilidade política é minha. Eu era o governador, eu tinha uma política de segurança. A responsabilidade criminal é individual e pessoal e tem de ser individualizada.

Terra - A ordem, de fato, partiu de quem?

Fleury - A ordem partiu do coronel Ubiratan, que estava no local.

Terra – E quem o autorizou?

Fleury - Quem o autorizou foi o secretário de Segurança. E autorizou bem. E quanto a isso a ordem foi absolutamente legítima. Tinha de entrar mesmo. Porque a minha polícia não se omite. No governo Mário Covas (PSDB), nós vimos preso jogando futebol com cabeça de detento. E a polícia assistindo. Essa é a pior das omissões. E no meu governo não teve mais nenhuma rebelião. E não tinha PCC organizado.

Terra – Qual foi a reação do senhor quando o secretário falou: “são 111”?

Fleury - Sem dúvida, foi muito tenso. É claro que eu preferia que não tivesse ocorrido nada disso, mas uma coisa que eu gostaria de deixar claro é que nós tínhamos lá amotinados mais de 1.500 presos. Agora, eu repito: a ordem de entrar foi absolutamente legítima. Os desdobramentos que ocorreram lá eu não comento e não vou comentar, porque está sub judicie. Mas eu sei exatamente tudo o que aconteceu. E não dependeu da ordem de ninguém. E uma das causas de tudo isso foi o fato de o coronel Ubiratan ter logo no início, coisa de cinco, dez minutos, ter recebido uma pancada de um tubo de televisão na cabeça, que o deixou até um pouco surdo o resto da vida. Aí, vamos dizer assim, o comando ficou prejudicado. E aí atos individuais foram praticados...

Terra – Mas como se perdeu o controle?

Fleury - Quando o coronel Ubiratan, que era, além de um comandante, um líder dentro da corporação, quando ele caiu, espalhou-se que mataram o coronel Ubiratan, entendeu? Então, a partir daí eu acredito que as coisas saíram de controle.

Terra – O caso do massacre do Carandiru mudou de alguma forma a relação que o senhor tem com a política, a trajetória que o senhor teve a partir daí?

Fleury - Em primeiro lugar, a expressão massacre do Carandiru já é preconceituosa e um pré-julgamento. Eu não aceito essa expressão. Eu era, até esse episódio, um dos favoritos à presidência da República. Estava fazendo com todas as dificuldades um governo bem orientado e com sucesso em duas áreas: segurança pública e educação. Houve reflexos sim (em sua carreira política). Eu acho que na política, como em qualquer profissão, muitas vezes você tem de fazer concessões. E o político muitas vezes tem de ser um homem frio, tomar a decisão que melhor lhe aprouver. Eu, para poupar o secretário Pedro Franco de Campos (de Segurança Pública), aceitei que ele saísse do governo (após o episódio), porque o Pedro é e era um dos meus maiores amigos. Uma pessoa por quem eu tenho um respeito profundo. Se eu fosse agir apenas e tão somente pela política, eu teria mantido o Pedro. Isso não foi compreendido na época por muita gente. Mas eu não me arrependo não. Eu não raciocinei politicamente ali. Eu raciocinei com o coração.

Terra – Mas logo na sequência o senhor demitiu o José Ismael Pedrosa, diretor do presídio.

Fleury - Afastei todos os envolvidos. Afastei os três coronéis que estavam na operação, afastei o Pedrosa, que era o diretor da Casa de Detenção para que a apuração pudesse ser feita da forma mais isenta possível. E terminada a apuração, eles poderiam voltar. Infelizmente, não terminaram a tempo de que eu pudesse fazer isso.

Terra - Poderia ter sido diferente?

Fleury - Realmente, o que “saiu da curva” foi essa quebra na cadeia de comando. Foi o que levou ao resultado. (...) Agora, uma coisa que precisa ser colocada, eu acho importante que se coloque é que, no governo Covas, só no mês de fevereiro de 95 aconteceram 63 rebeliões em presídios em São Paulo. E tudo o que os presos pediram, foi atendido. E foi aí que o PCC se organizou.

Terra – Mas alguns especialistas apontam que o PCC também foi uma resposta ao Carandiru.

Fleury - Não, não. Isso daí é lenda. Sabe o que era o PCC em 1993? Era o time de futebol para disputar o torneio interno das cadeias de São Paulo. Em 1993 e 1994, ele só era isso. Ele se organizou a partir de 1995 com essas 63 rebeliões que aconteceram. E não foi uma reação. Aí é uma glamourização do PCC. Eles se aproveitaram da fraqueza do governo Covas.

Terra - O senhor falou que no filme do Carandiru (dirigido pelo cineasta Hector Babenco e lançado em 2003) há uma cena com um celular que não condiz com a realidade. O senhor identificou alguma outra “gafe” no filme? E qual foi a sua sensação quando o assistiu?

Fleury - Eu tenho o maior respeito pelo Hector Babenco. É uma pessoa que eu acho fantástica. Agora, filme é filme, realidade é realidade. Tem uma coisa também no filme que não corresponde à realidade, que é a entrada de cães e da cavalaria dentro do presídio. Isso não aconteceu. Aliás, o Dráuzio Varella (médico e autor do livro Estação Carandiru, que deu origem ao filme) fez um trabalho extremamente importante dentro dos presídios. Eu li o livro dele, e no livro ele deixa claro que aquela era a versão dos presos. Coisa que no filme do Hector Babenco você só vê quando o filme termina e sobe o crédito. Quer dizer, todo mundo já está saindo do cinema quando vê aquilo (risos). Agora, é uma liberdade poética, uma liberdade de expressão, uma liberdade de criação, e a gente tem que respeitar.

Terra – Para o senhor, de quem é a culpa para esse episódio? E por que a demora para ocorrer o julgamento?

Fleury - Primeiro: houve uma grande preocupação inicial com o holofote e não com a prova. Segundo: as provas periciais demoraram muito para serem feitas, pra determinar de que armas partiram os tiros, e assim por diante.

Terceiro: precisa filtrar muito os depoimentos porque a gente não pode esquecer que, os depoimentos, até porque nós tínhamos uma divisão clara, os policiais de um lado e os presos do outro, os depoimentos todos têm que ser encarados com reserva. Quando você tem 111 vítimas, vítimas no sentido legal da palavra, 111 mortes, e você tem mais de 100 policiais que participaram, é natural que haja uma dificuldade grande na apuração da responsabilidade. Então isso leva à demora que nós estamos assistindo.

Terra - Mas houve uma interferência política para que o julgamento atrasasse tanto?

Fleury - Não, não acredito. Acho que as coisas são difíceis mesmo. E outra coisa, no Brasil hoje, o fato foi grave, mas aconteceu há 20 anos. À medida que o tempo passa, e à medida que crimes gravíssimos ocorrem, isso vai gerando (o pensamento): ‘bom, isso daí já aconteceu, todos já tiveram a sua punição moral, a sua punição política’. Eu fui punido politicamente. Eu tive a minha punição, e não fujo dela. E também eu diria que deixou de ser prioridade esse julgamento. Deixou de ser prioridade. Mas não acredito em interferência não. É todo esse acúmulo de situações que leva a isso. E eu queria dizer o seguinte: nós temos hoje um Carandiru por mês em São Paulo. Se você verificar as pessoas que morrem hoje de latrocínio e homicídios em São Paulo dá mais de um Carandiru por mês. Só que quem está morrendo não é preso cumprindo pena. Quem está morrendo é pai de família, é estudante, é dona de casa, e esse tipo de crime revolta as pessoas muito mais do que o que aconteceu. Foi feita a pesquisa na época: 50% a favor e 50% contra. Se fizer a pesquisa hoje dá 80% a favor.

Terra - Mas tem que lembrar que o preso está sob a guarda do Estado.

Fleury - Eu não estou justificando o ato. Seria muito melhor que não tivesse acontecido e talvez eu fosse presidente da República. Não estou justificando o ato. Mas estou falando a realidade de hoje. O que se vê hoje é um sistema carcerário dominado pelas próprias facções. O que se vê hoje é uma descrença total na Justiça.

Terra - O senhor tem algum arrependimento em relação a esse episódio? Algo que poderia ter sido feito diferente?

Fleury - Olha, eu não tenho, porque quando eu recebi a notícia, como eu disse eu estava em Sorocaba, me disseram que estava sob controle. Se me dissessem, naquele momento se tivessem dito: 'olha, a situação está se complicando', eu não teria voltado para dentro da casa (do então candidato do PMDB à prefeitura de Sorocaba) para almoçar. Eu teria voltado imediatamente para São Paulo. Mas a informação que me passaram é: “está sob controle, a Polícia Militar já está no local, já está cuidando, tem dois juízes da corregedoria dos presídios estão lá”, mais o secretário adjunto de Segurança Pública, doutor Antonio Filardi, estava lá também. Então eu pensei: “bom, se está todo mundo lá, se está tudo sob controle, não há necessidade de que eu pessoalmente comande qualquer coisa”. E isso algumas vezes me vem recorrentemente à memória. Poxa vida, bem que poderiam ter me dito realmente como é que estava a situação, talvez eu tivesse... Mas eu digo: se eu estivesse voltado (para São Paulo) eu teria dado a ordem de qualquer jeito. Eu insisto nesse ponto, acho que é muito importante insistir nesse ponto: a ordem foi legítima para entrar. No início, a operação foi absolutamente correta, e os desvios foram individuais a partir do momento em que desapareceu o comando. Então eu acho que nada poderia ter sido feito para evitar o resultado. A não ser evitar a rebelião, mas ela já estava acontecendo.

Terra - O senhor conseguiu dormir naquela noite?

Fleury - Da sexta-feira para o sábado eu dormi porque eu fui dormir acreditando que eram 40, 40 e poucos. E isso, numa rebelião com mais de 2 mil amotinados, não seria, vamos dizer assim, não teria a mesma repercussão que teve. Do sábado para o domingo eu talvez tenha tido um pouco de dificuldade pra dormir, mais pelo fato em si e também pelo fato de pensar nas providências que deveria tomar e que tomei de imediato.

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